Governança
Corporativa - Perguntas e Respostas
O que é
Governança Corporativa?
- Governança corporativa é
uma má tradução da expressão inglesa "corporate
governance". A origem é o verbo latino "gubernare", que
quer dizer "governar", ou "dirigir", "guiar". O
significado, meio vago, é o sistema pelo qual os acionistas de uma empresa
("corporation" em inglês) "governam", ou seja, tomam
conta, de sua empresa. É um sistema que, usando principalmente o "Conselho
de Administração" ("Board of directors" em inglês),
também a Auditoria Externa, e às vezes também o Conselho
Fiscal (que ao contrário do de Administração não é
obrigatório), estabelece regras e poderes para Conselho, seus comitês,
e diretoria, evitando os abusos de poder tão comuns no passado. Cria também
instrumentos de fiscalização da diretoria. É importante frisar
que embora a expressão seja nova (e tenha se transformado num modismo,
com muita gente falando bobagem a respeito) a atividade já existia, sem
que a gente percebesse quão importante era, e sem que tivesse ganho esse
nome.
Por que a recente onda de entusiasmo com este
assunto?
- O assunto ganhou força nos últimos dez anos
nos EUA e Inglaterra, e o resto do mundo percebeu a importância e está
correndo atrás. Surgiu como decorrência de alguns escândalos,
como o caso Guinness na Inglaterra (há um livro ótimo sobre esse,
"Requiem for a Family Business", escrito por um membro da família
Guinness), e de algumas companhias importantíssimas que quase quebraram,
como IBM e General Motors, sem que o Conselho tivesse feito coisa alguma. De repente
o mundo (ou melhor, os grandes investidores institucionais) percebeu que algo
estava errado. O Conselho não estava cumprindo sua obrigação.
Daí começou uma série de pesquisas sobre como a coisa estava
funcionando, e a pressão para as grandes empresas mudarem seus comportamentos
nocivos.
O projeto da nova Lei das S.A. vai fortalecer
a Governança Corporativa? E a proteção aos minoritários?
-
A Lei das S.A. em vigor criou o Conselho de Administração como figura obrigatória
para as empresas abertas, e ao mesmo tempo o Conselho Fiscal deixou de ser obrigatório,
sendo instalado quando os acionistas pedem (geralmente, no passado, em conseqüência
de conflitos). Parece-me que o projeto de lei em discussão não muda muito nisso.
O projeto, com muito louvor, preocupa-se com proteção aos minoritários, mas isso
não é tema da Governança. A Governança Corporativa se preocupa com o que é bom
para a empresa como um todo, e com os acionistas como um todo, não é a respeito
de proteger minoritários.
Todas as empresas vão
ter de adotar a Governança Corporativa?
- A Governança já está
aí, todas as empresas a têm. A estrutura das empresas em grande maioria familiares
dificulta a adoção de boas práticas de governança. A existência da figura do "dono"
faz que este pense que não precisa criar um sistema de governança, achando que
ele é o " manda-chuva" e pode fazer tudo sozinho. Em países com empresas de capital
realmente aberto e pulverizado é que a governança é mais útil, e tem mais chances
de funcionar bem, pois o conceito básico foi criado pressupondo a existência de
um grande número de acionistas, que elegem um Conselho na Assembléia Geral, não
existindo a figura do dono.
A globalização
está influenciando a Governança Corporativa?
- No exterior
não houve alterações fundamentais. Aqui a globalização e a privatização trouxeram
grandes modificações ao nosso capitalismo de terceiro mundo. Por um lado as empresas
estrangeiras estão comprando as brasileiras numa velocidade vertiginosa (exemplo:
autopeças, bancos). Por outro lado temos ex-estatais que se tornaram privadas,
em muitos casos com controle compartilhado entre fundos de pensão como Previ,
um parceiro estratégico estrangeiro, e investidores privados brasileiros. Os jornais
têm trazido as brigas que estão acontecendo, em parte porque não existe um sistema
eficiente de Governança.
Por que a preocupaçao
com a Governança Corporativa no Brasil? É para proteger os minoritários?
-
Governança não tem a ver com proteção aos minoritários, são coisas diferentes.
Por um lado existe um movimento legítimo e necessário de proteção a minoritários
em empresas privadas de capital aberto. Por outro, existe uma preocupação com
a maneira como empresas recém-privatizadas são governadas através de acordos entre
alguns do sócios - isso é um fenômeno muito novo e muito específico por causa
de defeitos no esquema de privatização utilizado.
E
como vai a empresa brasileira?
- Outro fenômeno que estou percebendo
é a aparição de um novo pensamente capitalista jovem e moderno, por exemplo o
praticado por gente como o Fundo Dynamo e o Investidor Profissional. É gente com
um pensamento extremamente moderno, parece-me que são para o Brasil de hoje o
que foi alguém como Jorge Paulo Leman trinta anos atrás.
O
que é importante num Conselho?
- A figura do conselheiro independente
é fundamental. É a pessoa que não tem outro interesse que o de defender o melhor
interesse da empresa como um todo. Não é empregado, não é acionista, não é amigo
de ninguém. Já o conselheiro profissional é alguém que vive disso, não faz outra
coisa senão ser conselheiro. Se for competente pode ser útil, desde que seja independente,
não ligado a grupos ou subgrupos dentro da estrutura acionária da empresa.
A
onda de fechamento de capital de empresas está influenciando a Governança
Corporativa?
- Não vejo que a onda de fechamento de capital tenha muito
impacto. A não ser sob a ótica de que havendo menos empresas abertas o crescimento
da governança será menor.
Os administradores brasileiros
vão conseguir se adaptar à Governança Corporativa?
-
Não acho difícil os executivos aprenderem a trabalhar para os acionistas. É só
sentirem de onde vêm as ordens, e as recompensas, que mudarão seu comportamento.
O problema todo veio do fato de que os acionistas não sabiam como exercer seu
poder. O poder é deles, é só usá-lo.
Mas
como ficam os minoritários face à Governança Corporativa?
-
Repetindo, a governança não é a respeito de minoritários.
Esta preocupação, altamente legitima, é da bolsa e da CVM.