Nestes tempos de globalização, em que a taxa de mortalidade da empresa brasileira cresce a velocidades galopantes, seja por quebra, seja por venda para empresas estrangeiras, é importante pensar em o que podemos fazer para reverter essa tendência assustadora. O assunto do momento ou, talvez, o assunto que espero se torne o assunto do momento no Brasil, porque no mundo civilizado já o é, é o da Governança Corporativa. Essa estranha expressão, que está a pedir uma tradução melhor, tem a ver com o sistema de relacionamento entre acionistas, que são os donos da empresa, e a gestão.

Como criar um Conselho que realmente represente os interesses dos sócios, como avaliar a atuação desse Conselho, como dar a ele diretrizes e poderes claros para fiscalizar, avaliar e cobrar a atuação do executivo-chefe, tudo issso faz parte das procupações da Governança Corporativa. No caso de companhias de capital aberto, como ter certeza de que os interesses dos minoritários estão sendo respeitados e de que os controladores não estão abusando de sua situação para levar qualquer tipo de vantagem. Principalmente, seja a companhia de capital aberto ou fechado, é fundamental fiscalizar os gestores para impedir abusos pessoais, ou que o ego frequentemente inflado do executivo-chefe o leve a exageros expansionistas, que já levaram tantas empresas para o buraco.

No caso específico das empresas de controle familiar, que em nosso país representam a esmagadora maioria, existem problemas específicos que são diferentes das questões enfrentadas pelas grandes companhias de capital aberto, controle acionário pulverizado e administração profissionalizada. Esses problemas específicos tendem a fazer das empresas familiares entidades mais frágeis, mais sujeitas ao fracasso.

Tentando lembrar quem eram os grandes empresários no tempo da minha infância em São Paulo, na década de 50, é difícil conseguir achar alguma empresa que ainda exista.

Estatísticas americanas confirmam: a empresa familiar é mais frágil do que aquela de capital pulverizado e gestão profissional. O dito popular "pai rico, filho nobre, neto pobre" é uma verdade mundial. Os ingleses tem uma versão engraçada: "Clogs to clogs in three generations", que quer dizer :"De tamancos aos tamancos em três gerações".

E é justamente um inglês que vem nos trazer suas luzes sobre este assunto tão importante. Foi durante uma reunião do "Family Business Network", organização sediada na Suiça que congrega centenas de membros de empresas familiares, que tive a sorte de comprar um exemplar do "Guide to the Family Business", de Peter Leach. Digo sorte porque foi meio por acaso -- eu não sabia quem era o autor, havia dezenas de livros à venda sobre o assunto, eu poderia ter comprado qualquer outro e não este.


Ed. Xenon - 1998

Entusiasta que sou do assunto, li o livro inteiro quase de uma só vez. Nunca tinha visto os problemas típicos da empresa familiar tratados com tanta praticidade. Era interessante, também, perceber que os problemas ingleses eram os mesmos que os do Brasil. Problemas de sucessão, problemas de rivalidades e conflitos dentro da família, problemas sobre como lidar com "agregados" (genros, cunhados, etc), problemas de como lidar com parentes incompetentes que se acham no direito de ter um emprego na empresa, entre outros.

Uma grande diferença cultural ajuda a sobrevivência das empresas inglesas: a tradição aristocrática da primogenitura, pela qual o filho mais velho herdava a propriedade e o título de nobreza, e os outros filhos não levavam nada, é apoiada pela legislação inglesa. Lá não existe a obrigatoriedade de dividir igualmente entre os filhos uma parte dos bens -- se um pai ou uma mãe quiser pode deixar tudo que tem para um único filho, ou mesmo para alguém estranho à família, e os outros têm de se conformar.

É comum, lá, um pai empresário deixar a empresa para o filho ou filhos que trabalham com ele, deixando os outros a ver navios. Esse procedimento, que na cultura brasileira é difícil de aceitar, lá é aceito por todos, e torna mais provável a sobrevivência da empresa, a longo prazo, na medida em que evita brigas entre herdeiros, e também a divisão da empresa em pedaços, que é uma maneira de contribuir para a sua extinção.

Peter Leach, o autor deste utilíssimo trabalho, dedica-se aos problemas da empresa familiar há 26 anos. Ele dirige o primeiro centro de atendimento especializado em empresas familiares da Inglaterra, em atividade desde 1992. Acabei por conhecê-lo e pude confirmar pessoalmente a sua grande cultura e experiência, salpicadas de um senso de humor tipicamente britânico, do tipo que às vezes deixa a gente na dúvida se a pessoa está brincando ou falando sério.

Não tenho dúvidas de que a leitura deste livro será altamente proveitosa para todos que se interessam pelo fascinante tema da empresa familiar.

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