A
sobrevivência da empresa familiar
Dediquei os últimos três anos a uma pesquisa sobre empresas familiares brasileiras que tenham sobrevivido cem anos nas mãos da mesma família. O resultado foi uma tese de doutorado defendida recentemente na Business School Lausanne, o que me deu o direito de usar as letras DBA após o meu nome. Elas significam Doctor of Business Administration.
Durante a pesquisa nossa equipe entrevistou dezenas de empresas, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, chegando finalmente às 14 que se enquadravam em nossos critérios. Dessas quatorze empresas, quatro foram fundadas por imigrantes portugueses, três por imigrantes italianos, três por brasileiros descendentes de portugueses, uma por imigrante espanhol, uma por alemão, uma por judeu da Europa Central, e uma por francês.
Em seguida às entrevistas passamos a uma análise minuciosa de cada família com ênfase na árvore genealógica, e na transmissão do controle da empresa dentro desta. Descobrimos logo no início uma tendência interessante nas famílias brasileiras de origem italiana: a de deixar as filhas de fora da empresa no momento da herança. Isso foi posteriormente confirmado em entrevistas com antigas empresas familiares na Itália. Os empresários italianos realmente acham que a atividade empresarial é coisa para homens, e tentam compensar suas filhas com outros bens, quando possível, deixando a empresa para os filhos homens (antigamente para o mais velho, hoje em dia para todos). Aos poucos fomos percebendo outros padrões de comportamento: de modo geral no século passado e no começo deste havia uma tendência de privilegiar na herança os filhos homens, e principalmente os que trabalhavam na empresa. Nas últimas duas gerações houve uma mudança, e hoje a maioria das famílias tende a deixar a empresa igualmente para todos.
Na análise final dividimos as empresas entre bem-sucedidas e mal-sucedidas, isto do ponto de vista do estado das relações familiares, e da família com a empresa. Assim, consideramos mal-sucedida uma família cuja empresa teve grande crescimento, é uma das grandes do país hoje, mas em que existem conflitos relacionados à empresa. E consideramos bem-sucedida outra família cuja empresa não cresceu, após cem anos continua uma pequena empresa quase do mesmo tamanho que tinha no começo do século, mas onde a família vive em harmonia consigo mesma e com a empresa.
Uma vez classificadas as empresas, atribuímos a cada uma notas positivas ou negativas para vários fatores. Alguns destes eram fatores padrão da teoria da empresa familiar, tais como a existência de um Acordo de Família, ou haver planejamento de sucessão. Outros eram fatores não necessariamente associados às empresas familiares, como ter havido diversificação dos negócios. Por último, um fator que até onde consegui pesquisar não havia sido analisado anteriormente: aquilo que chamei de reconcentração. Por reconcentração entenda-se qualquer movimento no sentido de reduzir o numero de sócios da empresa. Isso pode ser feito seja através de testamento, seguindo o hábito italiano de excluir parte da família da propriedade da empresa, seja através de compra de participação de alguns sócios por parte de outros, seja ainda por divisão do negócio em duas ou mais partes, ficando alguns dos sócios com cada parte.
A expectativa de todos os envolvidos no estudo era encontrar como principal fator de sucesso a prática do planejamento de sucessão, pois essa é a teoria vigente. Para nossa surpresa o fator com maior correlação com as famílias bem-sucedidas, ou seja, o principal fator que ajuda a sobrevivência da empresa familiar a longo prazo, foi a reconcentração. Ou seja, quanto mais a família restringe o crescimento do número de donos, maiores as chances de sobrevivência da empresa, a longo prazo, nas mãos de alguns membros da família.
Isso, como já foi dito, pode ser feito de diversas maneiras. As mais penosas, e provavelmente nos dias de hoje as mais freqüentes, são as que acontecem como conseqüências de conflitos entre irmãos ou primos: a divisão do negócio em vários pedaços, ou a compra da participação de uns pelos outros após longa briga. Existe, porém, uma maneira mais prática e não-penosa para obter o mesmo resultado. Essa maneira é aquela que identificamos acima com as famílias italianas: a escolha do pai, através de testamento, daqueles entre seus filhos que vão ficar com a empresa.
A reação inicial de
quem houve isto é dizer: "injustiça!"
"Não!",
discordo eu. Existem dois conceitos de o que é justo neste contexto. O
conceito grego diz que todos os filhos devem ser tratados com igualdade, o que
significaria neste caso deixar a empresa para todos igualmente. O conceito latino
define justiça como dar a cada um aquilo que ele merece ou de que ele precisa,
não necessariamente aquinhoando todos igualmente. Um pai que quer preservar
sua empresa, e quer que seus filhos vivam em harmonia, deve considerar seriamente
deixar sua empresa para aqueles filhos que a conhecem e dela gostam. Outros filhos
podem ser compensados de muitas maneiras:
A
experiência das sobreviventes com mais de cem anos, através de três
ou mais gerações, mostra que esta reconcentração viabiliza
o futuro da empresa. E ela pode acontecer de maneira descontrolada, como resultado
de conflitos, ou de forma planejada e pacífica. E essa forma "planejada
e pacífica" só é viável se vier do
fundador
ou pai que toma a coragem de enfrentar seus filhos com essa difícil decisão
e os convence de respeitar sua vontade.