Em busca das empresas centenárias

Sempre admirei as figuras pioneiras da nossa indústria. O visionário Mauá, o genial Delmiro Gouveia, os corajosos Mascarenhas, que fundaram a "Cedro e Cachoeira" (a S.A. mais antiga em atividade no país, até onde pude determinar) no interior de Minas há 130 anos, são pessoas que não podem deixar de despertar a nossa admiração. Às vezes até nossa incredulidade. Imaginar que Delmiro, por exemplo, nos primeiros anos do século, pudesse tornar realidade o sonho de instalar uma turbina hidrelétrica no meio do penhasco da Cachoeira de Paulo Afonso e, a partir disso, gerar eletricidade para implantar uma indústria têxtil em pleno sertão alagoano: parece coisa de romance, tal a audácia, a imaginação, a tenacidade dessas figuras que sonharam transformar o Brasil de fornecedor de matérias primas em potência industrial.

Desses três casos mencionados acima apenas uma empresa sobrevive hoje. A Mauá faliu ainda no século passado vítima, creio eu, do seu excesso de idealismo e boa fé, acrescido da inveja e má vontade de nossos governantes de então. Delmiro Gouveia morreu assassinado estupidamente, aparentemente por causa de uma disputa de terras com fazendeiros vizinhos. A Cedro e Cachoeira floresce, comandada pela sexta geração dos mesmos Mascarenhas, competindo de igual para igual com gigantes internacionais neste mundo globalizado.

O império do gigante Matarazzo, o maior empresário da América Latina nas décadas de 20 e 30, quebrou no ano em que completava 100 anos. Dos negócios dos pioneiros que fundaram a FIRJAN, ou a FIESP, praticamente nada restou. Qual é a explicação para essa triste sina do "Pai rico, filho nobre, neto pobre"?

Tenho buscado a resposta estudando as empresas que chegaram aos 100 anos, ou que atingiram a quarta geração da mesma família, e tentado entender qual a receita de seu sucesso. Uma coisa transparece logo: as famílias bem sucedidas têm uma mentalidade de dar prioridade ao sucesso da empresa e não aos interesses pessoais de seus donos. Por exemplo, entre distribuir lucros ou reinvestí-los, a prioridade é manter o dinheiro na empresa para propiciar seu crescimento.

Uma outra coisa que logo se percebe: nas famílias que conseguem sobreviver várias gerações, geralmente o chefe da família decidiu sobre a sua sucessão enquanto estava saudável e lúcido. Os empresários que não deixam sua sucessão decidida geralmente levam seus filhos a brigar por ela, e isso freqüentemente destrói a empresa.

Volta para o topoEstou em busca de mais empresas familiares que tenham sobrevivido por diversas gerações para continuar minhas pesquisas.

*Antonio Carlos Vidigal é consultor de empresas
e autor do livro "Viva a empresa familiar!"